Lembro-me de quando escrevia, quando ainda acreditava em me expressar, ou talvez entender alguma coisa. Deitado no chão com os olhos semiabertos eu tentava me desfazer da confusão, lembrar das etéreas imagens da minha vida. Procurava algum alento aos meus dias monótonos, alguma novidade que me despertasse. Buscava em vão, e tudo o que eu vivia era não-sequencia, era uma mistura de impressões e dúvidas que me mordiam o espírito. O tempo era estático e angustiante, era um instante constante e dilatado que por um fugaz momento me fez ignorar o sono que em mim se espalhava, lentamente, como veneno no sangue...
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Até que sentei. Resolvi escrever e buscar o que me restava da velha criatividade, roída ao longo do tempo pela idade e pela preguiça. Esforcei-me, e a vela queimava suas últimas luzes, enquanto eu corria a tinta no papel. Os olhos não eram os mesmos, a mão e as idéias também não; mas eu sabia que logo as palavras sairiam. Sentia a mente retomando o antigo trabalho, e o universo de sentidos que as letras construíam pouco a pouco se formava, embora eu não o soubesse distinguir do meu próprio universo.
Lentamente o escrito foi tomando forma e perdendo sua timidez. Fazia tempo que não gostava do que escrevia - em verdade, eu nunca tive muita fé na minha criação - mas dessa vez parecia diferente. Eu realmente me senti compartilhado, como se meu vitral colorisse a página com uma luz desconhecida, que me perpassava, traduzindo o que eu sentia. As palavras iam saindo por detrás dos últimos muros da minha imaginação e caminhavam, até chegar à página branca de que eu sempre tivera medo.
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Senti a plenitude de quem termina longo trabalho. Baixei a cabeça, esfreguei o rosto com as mãos enrugadas enquanto olhava o escrito sobre a mesa. Aturdido e surpreso por ter conseguido então me refazer no velho ofício, levantei-me da cadeira com movimentos
confusos e por ventura esbarrei, com a mesma mão que corria a tinta no papel, na vela quase apagada; e ela não evitou de cair sobre o papel em que eu escrevera havia pouco. O fogo pôs-se a queimar, desfazendo aquilo que era um fraco refolegar duma alma quase afogada, sem ar.
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Então voltei à vigília, ainda deitado no chão. Eu não havia sentado, não tinha escrito nada, continuava o mesmo de tantos anos. No entanto, sobre a mesa estavam as cinzas - as minhas cinzas. A luz ficou fraca e meus olhos a perderam.
muito bom mano!!
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