23 de novembro de 2011

Manu de barro

PARREEDE!

Quando eu estudava no colégio, interno,
Eu fazia pecado solitário.
Um padre me pegou fazendo.
- Corrumbá, no parrrede!
Meu castigo era ficar em pé defronte a uma parede e
decorar 50 linhas de um livro.
O padre me deu pra decorar o Sermão da Sexagésima
de Vieira.
- Decorrrar 50 linhas, o padre repetiu.
O que eu lera por antes naquele colégio eram romances
de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio.
Ao ler e decorar 50 linhas da Sexagésima fiquei
embevecido.
E li o Sermão inteiro.
Meu Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário!
E fiz de montão.
- Corumbá, no parrrede!
Era a glória.
Eu ia fascinado pra parede.
Desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato.
Decorei e li o livro alcandorado.
Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases.
Gostar quase até do cheiro das letras.
Fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário.
Ficar no parrrede era uma glória.
Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom.
A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio
das paredes.




Manoel de Barros

13 de novembro de 2011

Estátua

Parecia uma mulher
quase humana, se é

pois não queres o que a ti falta?
fogo e artéria; alma tua, concreta
o espaço, um beijo
és humana mulher
em amena condição
pois é dura e fria
a matéria do teu coração

3 de outubro de 2011

Gravura

Agrura
na ágora
de mim
agora

gravura
um pássaro
por mim
embora

2 de outubro de 2011

As cinzas

Lembro-me de quando escrevia, quando ainda acreditava em me expressar, ou talvez entender alguma coisa. Deitado no chão com os olhos semiabertos eu tentava me desfazer da confusão, lembrar das etéreas imagens da minha vida. Procurava algum alento aos meus dias monótonos, alguma novidade que me despertasse. Buscava em vão, e tudo o que eu vivia era não-sequencia, era uma mistura de impressões e dúvidas que me mordiam o espírito. O tempo era estático e angustiante, era um instante constante e dilatado que por um fugaz momento me fez ignorar o sono que em mim se espalhava, lentamente, como veneno no sangue...

  
          ***

   Até que sentei. Resolvi escrever e buscar o que me restava da velha criatividade,  roída ao longo do tempo pela idade e pela preguiça. Esforcei-me, e a vela queimava suas últimas luzes, enquanto eu corria a tinta no papel. Os olhos não eram os mesmos, a mão e as idéias também não; mas eu sabia que logo as palavras sairiam.  Sentia a mente retomando o antigo trabalho, e o universo de sentidos que as letras construíam pouco a pouco se formava, embora eu não o soubesse distinguir do meu próprio universo.
Lentamente o escrito foi tomando forma e perdendo sua timidez. Fazia tempo que não gostava do que escrevia - em verdade, eu nunca tive muita fé na minha criação - mas dessa vez parecia diferente. Eu realmente me senti compartilhado, como se meu vitral colorisse a página com uma luz desconhecida, que me perpassava, traduzindo o que eu sentia. As palavras iam saindo por detrás dos últimos muros da minha imaginação e caminhavam, até chegar à página branca de que eu sempre tivera medo.

      ***

   Senti a plenitude de quem termina longo trabalho. Baixei a cabeça, esfreguei o rosto com as mãos enrugadas enquanto olhava o escrito sobre a mesa. Aturdido e surpreso por ter conseguido então me refazer no velho ofício, levantei-me da cadeira com movimentos
confusos e por ventura esbarrei, com a mesma mão que corria a tinta no papel, na vela quase apagada; e ela não evitou de cair sobre o papel em que eu escrevera havia pouco. O fogo pôs-se a queimar, desfazendo aquilo que era um fraco refolegar duma alma quase afogada, sem ar.
        
   
  ***

   Então voltei à vigília, ainda deitado no chão. Eu não havia sentado, não tinha escrito nada, continuava o mesmo de tantos anos. No entanto, sobre a mesa estavam as cinzas - as minhas cinzas. A luz ficou fraca e meus olhos a perderam.

19 de setembro de 2011

Jardim de um tempo ausente



"A música, os estados de felicidade, a mitologia, os rostos trabalhados pelo tempo, certos crepúsculos e certos lugares querem nos dizer algo, ou algo disseram que não deveríamos ter perdido, ou estão a ponto de dizer algo; essa iminência de uma revelação que não se produz é, quem sabe, o fato estético” J.L.Borges


   O fato estético é a comunhão, é a dissolução na margem do infinito; é o lugar da significação, da calma. Certos lugares assobiam a revelação aos ouvidos. O rio, as quedas d’água – metáfora concreta do infinito a sempre água que corre, que aflui as margens da percepção –, a música, a memória, tudo isso fala, isso ecoa o tempo, ressoam vidas e sentimentos ao coração. Os peixes, a sombra das árvores, o rebulir da água, tudo isso acende cada pedaço de luz aos recônditos da mente.
     Lembro Milton Nascimento; dos peixes milagres, do pó da estrada. A chamada de algum lugar, de fora ou de dentro? Alguém chama, é o vitral do Milton trespassando a luz diáfana do dia; talvez seja a fonte, talvez seja a revelação que se pode relancear, que se vislumbra de soslaio. O som do Milton é a intuição de um tempo irreconhecível
     Lembro Guimarães Rosa; das veredas de onde se tem relances do mistério, do grande sertão que perpassamos. Não se corre os gerais e o sertão todos, mas das sendas se sente o gosto; prova-se o escuro mel da linguagem. Essa sensação telúrica, essa intuição do desconhecido é o que tece as curvas e as cores da vida no tecido-tempo.
     Lembro Minas, lembro um lugar, lembro um tempo que nunca fui. 

8 de agosto de 2011



Eu quero viver
a suave diluição do céu
no ser;
o céu do ser é mel
meu lado imanente
é melado no que sente
imanescer, permanecer

ausente