19 de setembro de 2011
Jardim de um tempo ausente
"A música, os estados de felicidade, a mitologia, os rostos trabalhados pelo tempo, certos crepúsculos e certos lugares querem nos dizer algo, ou algo disseram que não deveríamos ter perdido, ou estão a ponto de dizer algo; essa iminência de uma revelação que não se produz é, quem sabe, o fato estético” J.L.Borges
O fato estético é a comunhão, é a dissolução na margem do infinito; é o lugar da significação, da calma. Certos lugares assobiam a revelação aos ouvidos. O rio, as quedas d’água – metáfora concreta do infinito a sempre água que corre, que aflui as margens da percepção –, a música, a memória, tudo isso fala, isso ecoa o tempo, ressoam vidas e sentimentos ao coração. Os peixes, a sombra das árvores, o rebulir da água, tudo isso acende cada pedaço de luz aos recônditos da mente.
Lembro Milton Nascimento; dos peixes milagres, do pó da estrada. A chamada de algum lugar, de fora ou de dentro? Alguém chama, é o vitral do Milton trespassando a luz diáfana do dia; talvez seja a fonte, talvez seja a revelação que se pode relancear, que se vislumbra de soslaio. O som do Milton é a intuição de um tempo irreconhecível
Lembro Guimarães Rosa; das veredas de onde se tem relances do mistério, do grande sertão que perpassamos. Não se corre os gerais e o sertão todos, mas das sendas se sente o gosto; prova-se o escuro mel da linguagem. Essa sensação telúrica, essa intuição do desconhecido é o que tece as curvas e as cores da vida no tecido-tempo.
Lembro Minas, lembro um lugar, lembro um tempo que nunca fui.
Assinar:
Comentários (Atom)
